João da Cruz e Sousa - Broquéis - 50 - Majestade Caída





João da Cruz e Sousa - Broquéis - 50 - Majestade Caída


Esse cornóide deus funambulesco

Em torno ao qual as Potestades rugem,

Lembra os trovões, que tétricos estrugem,

No riso alvar de truão carnavalesco.


De ironias o momo picaresco

Abre-lhe a boca e uns dentes de ferrugem,

Verdes gengivas de ácida salsugem

Mostra e parece um Sátiro dantesco.


Mas ninguém nota as cóleras horríveis,

Os chascos, os sarcasmos impassíveis

Dessa estranha e tremenda Majestade.


Do torvo deus hediondo, atroz, nefando,

Senil, que embora, rindo, está chorando

Os Noivados em flor da Mocidade!



João da CRUZ E SOUSA (1861 - 1898) foi um poeta brasileiro, considerado um dos precursores do movimento simbolista no Brasil. Seus poemas são marcados pela musicalidade e pelo sensualismo, mesclado com uma espiritualidade e religiosidade de maneira às vezes espantosa. Broquéis foi seu livro de estréia, e contém algumas de suas obras mais famosas, como o poema Antífona, peça de abertura do livro.




 João da Cruz e Sousa - Broquéis - 50 - Majestade Caída