João da Cruz e Sousa - Broquéis - 04 - Múmia





João da Cruz e Sousa - Broquéis - 04 - Múmia


Múmia de sangue e lama e terra e treva,

Podridão feita deusa de granito,

Que surges dos mistérios do Infinito

Amamentada na lascívia de Eva.


Tua boca voraz se farta e ceva

Na carne e espalhas o terror maldito,

O grito humano, o doloroso grito

Que um vento estranho para és limbos leva.


Báratros, criptas, dédalos atrozes

Escancaram-se aos tétricos, ferozes

Uivos tremendos com luxúria e cio...


Ris a punhais de frígidos sarcasmos

E deve dar congélidos espasmos

O teu beijo de pedra horrendo e frio!...



João da CRUZ E SOUSA (1861 - 1898) foi um poeta brasileiro, considerado um dos precursores do movimento simbolista no Brasil. Seus poemas são marcados pela musicalidade e pelo sensualismo, mesclado com uma espiritualidade e religiosidade de maneira às vezes espantosa. Broquéis foi seu livro de estréia, e contém algumas de suas obras mais famosas, como o poema Antífona, peça de abertura do livro.




 João da Cruz e Sousa - Broquéis - 04 - Múmia